Quando ouço uma porção de intelectuais que têm um repertório infinito de referências e que parece que viveram uma vida anterior só lendo livros, eu fico agoniado. Nunca terei condições de “alcançá-los”, tenho menos tempo de vida do que livros pra ler… e acabo me sentindo um verdadeiro mané.

Tentando encontrar uma válvula de escape para aliviar essa angústia, eu acabei fazendo um paralelo. Você já ouviu falar em Freestyle Football? O Freestyle é um malabarismo em que os praticantes fazem miséria com uma bola de futebol. São chamados de “atletas do asfalto” e exibem-se pelo mundo. Assistindo a suas exibições, eu tive uma ideia: os intelectuais que citei são praticantes do Freestyle cognitivo. Quando dominam a bola é um espetáculo, ficamos embasbacados com sua habilidade, parece mágica o que eles fazem… Não dá pra fazer como eles, e se você tentar tirar-lhes a bola, cairá de bunda no chão.

Agora, experimente colocá-los para jogar uma partida de futebol de verdade, num time profissional. Coloque-os lá na ponta esquerda, no ataque, e veja o que acontece. Provavelmente nada que um jogador mediano não faça. Aquela habilidade fantástica que nos maravilha, não se aplica ao jogo real, onde a consciência de equipe, a obediência tática, a preparação física, a visão de jogo, a interação com os companheiros é que fazem o craque.

O Freestyle inspira um Neymar a criar jogadas e dribles maravilhosos, mas é só isso. Inspiração. Fragmentos de genialidade que alguém tem de aplicar em seu dia a dia. Um jogador profissional de futebol toma um olé de um praticante de Freestyle. Mas um craque do Freestyle pouco ou nada faz num time profissional de futebol.

Agora vindo aqui para o nosso mundinho: bote um desses intelectuais aí para carregar o piano, para assumir um cargo no executivo ou no legislativo, para dirigir uma organização, para liderar uma equipe… E você verá um sujeito normal, que erra, que toma decisões medíocres, que tem limitações, angustiado porque toda aquela sua habilidade maravilhosa tem pouca aplicação no campo onde se joga o jogo real.

Mas eles são lindos de ouvir e de ler.

Pois é. Você aí no seu pedaço tem valor, viu? E faz coisas que os malabaristas do Freestyle cognitivo jamais fariam.

É isso que acalma minha angústia.

 

 

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