Cafezinho 249 – A vanguarda do atraso

Em 1975, recém-chegado do interior, eu era descrito por Álvaro de Campos: eu era nada, nunca seria nada, não poderia querer nada. Mas à parte isso, tinha em mim todos os sonhos do mundo.

Entre 1977 e 79, fui para as ruas gritar “abaixo a repressão” e pela “volta do irmão do Henfil”! Eu sonhava com um Brasil livre, justo, com educação, saúde e trabalho digno para todos. Imaginava que quando nossa geração chegasse ao poder, sucedendo aqueles velhos que não compreendiam a voz das ruas, teríamos o país com o qual sonhávamos. E assim, no começo dos anos 2000, as pessoas que em 1979 tinham todas as respostas, assumiram o poder, e...

Quarenta anos depois, mesmo com o país mais rico, conectado, globalizado e cheio de oportunidades, aquela harmonia sonhada pela garotada que foi às ruas, não aconteceu. Pior: muitos dos que tinham o discurso da ética e da justiça social protagonizaram os maiores escândalos de corrupção da história deste país. O que é que deu errado, hein?

Bem, muitas coisas, mas uma eu acho que foi a principal: depois que aqueles jovens conseguiram o que queriam, foram cuidar de suas vidas, e deixaram a condução do Brasil nas mãos de qualquer um que se interessasse. Qualquer um. Então os desonestos, os aproveitadores, os incompetentes e os manipuladores, tomaram as rédeas e construíram o país de sua conveniência. Até 2013, quando o jogo começou a mudar.

Eu discuto isso em detalhes em meu livro Me Engana Que Eu Gosto, que eu escrevi para que, daqui a 40 anos, os jovens que hoje têm ido às ruas pedindo decência, honestidade e justiça, não sintam a mesma sensação de vazio que eu senti.

Mudar é só o começo. Manter as coisas mudadas é que é a encrenca.

Tem gente demais na vanguarda do atraso.

 

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